A produção artesanal de sal em Aveiro deve ser preservada através da criação de um ecomuseu que transmita uma «visão conjugada» sobre uma actividade que é anterior à fundação de Portugal, defendeu hoje o geógrafo Énio Semedo.
Professor, geógrafo, e autor de diversas obras, entre as quais se destaca "Aveiro do Vouga ao Buçaco", escrita em parceria com o historiado Amaro Neves, Énio Macedo lança esta noite o livro "Ecomuseu do Salgado de Aveiro" em que reflecte sobre a história do sal, que até meados do século passado era considerado «o ouro branco» de Aveiro.
A câmara de Aveiro associa-se à iniciativa, apoiando a edição do livro e cedendo a Galeria Municipal para acolher uma exposição que «mostra de forma tridimensional os propósitos da obra».
A exposição reúne artefactos, pinturas, fotografias, postais e recortes alusivos ao sal, do acervo da autarquia aveirense, de Énio Semedo e do Clube dos Galitos.
«O projecto de um ecomuseu do sal deve ser entendido como pólo congregador de sinergias múltiplas, dinâmico e dinamizador de uma actividade claramente deprimida e agente de preservação da cosmovisão marnoteira», disse à Lusa Énio Semedo.
O livro é uma versão revista e ampliada de um seu trabalho académico «que tem pelo menos dez anos» e por isso algumas das propostas já estão no terreno, mas, segundo o autor, devem ser integradas de forma a transmitirem «uma visão conjugada» da exploração do sal.
Énio Semedo defende a criação de um ecomuseu com diversos núcleos, que possa servir não só para mostrar aos visitantes a arte dos marnotos, mas também como um ponto de partida para a comercialização de produtos derivados do sal e para trabalhos científicos.
Do projecto do geógrafo constam o actual Ecomuseu Marinha da Troncalhada, propriedade da câmara, que constituiria o pólo principal.
Énio Semedo defende que a Troncalhada, uma marinha onde os visitantes podem acompanhar a produção artesanal do sal e que em 2009 recebeu 12 mil visitantes, deve ser acompanhada de um Centro Interpretativo no Canal de São Roque.
Actualmente, a autarquia tem prevista a construção de um centro interpretativo na zona das marinhas, mas o projecto tem sofrido adiamentos, como reconheceu a vereadora da Cultura Maria da Luz Nolasco.
O geógrafo defende a transferência do centro interpretativo para o Canal de São Roque, «centro da cultura do sal», e a instalação num dos históricos armazéns de madeira cuja propriedade pertence ao município.
Énio Semedo defende ainda a integração no ecomuseu das casas típicas do bairro da Beira-Mar, que serviam de residência aos marnotos.
«Com estas estruturas será possível transmitir uma visão conjugada da exploração salícola», defende o geógrafo, que acredita que a sobrevivência dos marnotos passa pela comercialização de produtos inovadores, designadamente a flor do sal, que podem ser usados na cosmética ou na indústria do lazer.
A exploração do sal em Aveiro, que é referenciada em documentos anteriores à fundação da nacionalidade, já foi uma das indústrias com mais vitalidade do concelho, mas foi perdendo importância sobretudo devido à concorrência dos produtos do Norte de África, que chegam mais baratos ao mercado.
Há cerca de cem anos havia quase 200 marinhas em funcionamento, mas hoje «só estão a trabalhar entre seis a dez» unidades, refere Énio Semedo.
A câmara tem apostado na revitalização do sal e preservação da sua memória, tendo, entre outras medidas, aderido ao projecto transnacional Ecosal Atlantis, que foi recentemente aprovado pela União Europeia.
Este projecto tem a duração de trinta e seis meses, estando a coordenação a cargo da Diputación Foral de Alava (Vitoria - Espanha) e inclui mais de uma dezena de parceiros distribuídos entre de Portugal (por exemplo, a Universidade de Aveiro, Figueira da Foz, Castro Marim e Rio Maior), Espanha, França e Inglaterra.
O valor global da candidatura dos diversos parceiros é superior a três milhões de euros, com a candidatura específica de Aveiro a atingir 385 mil euros, com a comparticipação do FEDER é de 65 por cento.