Os rendimentos dos vitivinicultores do Douro diminuem de ano para ano por causa dos cortes no benefício e no preço do vinho, mas muitos recusam abandonar as terras porque dizem já nasceram «debaixo de uma videira».
Pelos degraus de socalcos que serpenteiam a mais antiga região demarcada do mundo, espalham-me milhares de pequenos e médios vitivinicultores que, segundo dados da Casa do Douro, sofreram uma redução de rendimentos na ordem dos «60 por cento» na última década.
Agostinha Glória e Abraão Santos são irmãos e possuem vinhas em Alvações do Corgo, concelho de Santa Marta de Penaguião. Aos poucos Agostinha e o marido foram comprando, através de empréstimos, terrenos até juntar 22 hectares onde colhem cerca de 150 pipas de vinho.
Aqui já tiveram direito a 82 pipas de benefício, quantidade de mosto que pode ser transformado em vinho do Porto) que chegaram a vender a 1150 euros por pipa, 550 litro). Na última vindima, esta vitivinicultora pode colher apenas 60 pipas de benefício.
«Entregamos as uvas na última colheita sem preço e ainda não recebemos, nem sabemos quando ou quanto vamos receber», afirmou à Agência Lusa.
Segundo a Associação de Vitivinicultores Independentes do Douro (AVIDOURO), a média por pipa de vinho do Porto não ultrapassou os 800 euros.
Agostinha Glória ainda não recebeu pelo «generoso», mas teve que pagar aos trabalhadores que contratou para a vindima e tem que pagar aos que chama periodicamente para outros trabalhos que é preciso fazer na vinha ao longo do ano, salientando que «o que nos valeu foram as uvas que vendemos para fazer vinho de mesa e pelas quais já recebemos alguma coisa».
O que vale também é que muito do trabalho é feito apenas pelo casal com a ajuda dos filhos e das receitas do café que explora em Alvações do Corgo e onde Agostinha passa muitos dos seus dias.
A acrescentar a tudo isto está, segundo salientou, a pequena dimensão da propriedade e a inclinação dos terrenos no Douro, que dificultam a mecanização e obrigam a recorrer a «muita mão-de-obra». Mas, apesar das dificuldades, estes vitivinicultores recusam desistir. E porquê? Porque já nascemos debaixo de uma videira», salientou Abraão Santos.
Este vitivinicultor diz que, actualmente, o rendimento que tira da vinha «não dá para pagar o que se gasta». Com 3,5 hectares de vinha e 11 pipas de benefício, onde já teve direito a 14, Os vitivinicultores neste momento estão à deriva, ninguém quer saber de nós», sublinhou.
Agostinha Glória quer acreditar que a situação no Douro vai «melhorar um dia». «Realmente o Douro é muito bonito, mas é preciso ver quem põe o Douro bonito, os pequenos e médios vitivinicultores que se sacrificam todos os dias. Esta é a realidade do Douro», sublinhou.
Fonte: Lusa