Entrevista a José Capela

Confagri 17 Mai 2018

José Capela  – “Queremos juntar todas as empresas da Agros num só espaço”

José Capela, 57 anos, natural da freguesia vila-condense de Bagunte, cresceu numa família ligada à agricultura, tendo sido sempre essa a sua principal atividade. Foi presidente da Cooperativa Agrícola de Vila do Conde durante 12 anos e está a iniciar o seu terceiro mandato (agora de 4 anos, ao contrário dos 3 até aqui) enquanto presidente da Agros, que envolve 44 cooperativas do norte do país. Em entrevista ao MAIS/Semanário, fez uma radiografia ao setor, abordou a mudança da sede da Agros de Vila do Conde para a Póvoa de Varzim e do projeto de centralizar todas as empresas do Grupo num só espaço.

 

Foi reconduzido na presidência da Agros. Porque decidiu assumir um novo mandato?

Antes de ser presidente, eu era delegado e, já naquela altura, há cerca de 6 anos, estavam a ser tomadas decisões por parte da direção com as quais eu não concordava. Nomeadamente com a gestão de algumas empresas do grupo, que, desde que foram criadas, nunca geraram resultados positivos, algo que eu achava estranho e anormal. Também não concordei com alguns investimentos feitos e com o caminho que a Agros, como entidade de referência no setor leiteiro e líder na recolha e rastreabilidade do leite crú de vaca, estava a seguir. No primeiro mandato, o objetivo foi equilibrar financeiramente a organização – Agros União – , que no ano anterior à nossa entrada tinha tido resultados negativos de 500 mil euros. Conseguimos inverter a tendência e, no fim desses primeiros 3 anos, todas as empresas do grupo tiveram resultados positivos. Mas o nosso maior problema estava na empresa Naturar, que detínhamos em parceria com a Lacticoop. Era um autêntico buraco negro em termos financeiros: foram 25 milhões em prejuízo para a organização. Ao fim de 1 ano, conseguimos resolver.

 

Foi saneado o passivo?

Quando nós assumimos a liderança, a Agros União tinha um passivo na ordem dos 16 milhões, algo que resolvemos no início do segundo mandato. Pagámos completamente o passivo e ainda conseguimos gerar excedentes, que nestes últimos 3 anos representam 6 milhões e 300 mil euros de poupança, distribuídos pelos Produtores. O nosso foco, de resto, está precisamente nos benefícios que podemos levar aos Produtores, responsabilidade que passámos também à Lactogal, na qual temos uma participação de 33,33%. É a Lactogal que dá sustentabilidade a todo o setor leiteiro porque está encarregada da sua industrialização e comercialização. O que nós queremos é pagar o melhor preço possível à produção embora saibamos que o mercado tem especificidades, como o facto de sermos um país pequeno e periférico em termos de consumo. Ainda assim, temos conseguido competir com países com outro tipo de estrutura.

 

Com os novos estatutos poderá estar na liderança da Agros mais 12 anos. Tem esse propósito?

De certeza que não estarei. Mas em termos da limitação, sim poderia estar.

 

Porque é que não vai estar esse tempo?

O futuro dirá. Eu sou um defensor da limitação de mandatos, há um período de tempo de 10/12 anos que é razoável para nós implementarmos e incutirmos em qualquer organização, aquilo que são as nossas ideias. A partir daí, acho que devemos dar lugar a gente nova e que haja uma renovação natural. Recandidatei-me por achar que ainda posso dar muito ao setor com esta equipa que me acompanha. Contamos com gente nova e eu acho que ainda há aqui um conjunto de desafios e projetos que nós podemos implementar e executar, sendo que neste momento nós temos que dar é alguma estabilidade e sustentabilidade ao setor. Muitas vezes nós dependemos daquilo que são decisões políticas, mas daquilo que depende de nós, pretendemos dar estabilidade ao setor, porque nestes últimos anos têm existido muitas alterações e liberalizações e portanto é preciso dar algum equilíbrio aos Produtores e isso faz-se muito através da nossa empresa que é aí que se acrescenta o valor e é aí que digamos, podemos cuidar da nossa matéria-prima e valorizá-la na Lactogal. É um trabalho que tem de ser feito, mas temos que entender que detemos 33,33% da Lactogal e que temos mais dois sócios (Proleite e Lacticoop) com a mesma participação. Assim, tanto na Lactogal como na Agros ainda há muita coisa que podemos fazer . Portanto a minha recandidatura é muito nesse sentido.

 

Há cerca de ano e meio disse que este era um setor envelhecido. Mantém-se?

De alguma forma sim. Há aqui uma bacia leiteira na qual temos conseguido alguma renovação mas nesta altura não é de facto um setor muito atrativo. Quando eu comecei na agricultura as coisas eram diferentes. A realidade mudou a partir do momento que Portugal entrou para a Comunidade Europeia. Dificilmente hoje alguém começa do zero neste setor, os investimentos iniciais são brutais e a perpetiva de retorno não é apelativa. A renovação vai-se fazendo também a nível familiar, trazendo os filhos, por exemplo. Dou alguns números: há cerca de 30 anos, a Agros tinha mais de 30 mil Produtores e produzia 400 milhões de litros. Agora, tem 1200 Produtores e produz 536 milhões.

 

Outro fator determinante foi o fim das quotas leiteiras…

Antes tínhamos um mercado mais ou menos regulado porque as quotas permitiam ajustar as necessidades de consumo e a produção. Com o fim das quotas leiteiras, cada um passou a produzir o que queria e isso criou problemas de excedentes, o que por sua vez fez com que tivessemos que pagar muito menos pelo produto. Foi um dos desafios do último mandato a que demos respota por via de uma nova ferramenta: os contratos, que vieram criar uma mudança de paradigma. Também registamos a Agros como Organização de Produtores e criamos o Regulamento Interno para que fosse possível à Agros OP cumprir com um dos objectivos das organizações de Produtores que é o de assegurar a programação da produção e a adaptação desta à procura, nomeadamente em termos de qualidade e de quantidade. Num mercado completamente liberalizado, em que só se regula a produção através do preço, houve situações de compradores que pagaram na altura 21-22 cêntimos à produção, o que era insustentável.

 

Referiu que a Agros colocou no mercado 6 milhões e 300 mil euros, ou seja, aumentou o preço por litro a pagar aos Produtores. Acha que será possível aumentar esse valor?

Foram 6 milhões de euros nos três anos, o que dá cerca de 2 milhões por ano, esses valores são a nossa margem mas é impossível conseguir muito mais que isso, a menos que aumentemos a margem. O que é possível é, gerindo as quantidades, acrescentar valor pagando o melhor possível pelo leite. Isso pela via Lactogal. Pela via Agros é muito difícil ter ganhos acima dos já referidos.

 

Considera que, entre o deve e o haver, o setor está mais estável?

Não tenho dúvidas. Sendo que tudo isto tem a ver com os custos de produção, há um fator que afeta os Produtores de leite, e que representa a maior despesa, que é o custo das rações. Custo esse que tem estado, nos últimos anos, estável. O preço das matérias-primas tem subido ultimamente, é certo, e isso preocupa-nos, mas são aspetos que não conseguimos controlar.

 

Concretamente, qual é a visão global que preconiza para os próximos anos, enquanto dirigente da Agros. O mercado e a economia do setor têm sustentabilidade a médio-longo prazo ou poderão sofrer da instabilidade que marcou a última década?

É preciso ter em conta alguns fatores: por um lado temos a liberalização, e por outro, há um mercado que não cresce. Cada vez somos menos população, naqueles anos de crise houve até muita gente que emigrou, e isso reduz o nosso potencial de mercado. Havia ainda um problema estrutural: há cerca de 5 anos colocávamos muito leite em Espanha, um mercado que era deficitário, depois que se implementaram as quotas. Sendo o nosso vizinho e principal mercado, conseguimos exportar muito leite para lá. Com a liberalização, os países naturalmente tentaram defender-se e em Espanha aconteceu o que aqui também já está a acontecer. A distribuição começou a exigir matéria-prima produzida em Espanha, e dos 120 milhões de litros de leite que exportavamos, hoje em dia, é um mercado residual. Se o nosso mercado não cresce em termos de consumo (aliás existe uma campanha anti-leite há 2 ou 3 anos) e se há uma outra realidade que é os Açores (economia sustentada na produção de leite, mas que pelos apoios que tem, vem para cá com outro tipo de preços), há aqui um grande problema que só se resolve com exportação. E mesmo aí estamos a concorrer com paises mais competitivos que nós. O que nós tentamos fazer para nos defendermos é controlar a produção para que haja algum equilíbrio.

 

O Estado deve intervir?

Não pode porque a filosofia da União Europeia é a do livre mercado. Nós hoje temos duas cadeias de distribuição que representam 70% do mercado e com um poder negocial brutal. Para poder escoar produto está-se muito dependente da distribuição. Mesmo sendo a Lactogal o principal player no mercado, é muito difícil negociar. Em termos de legislação, há de facto, uma tentativa de proposta para que sejam criadas algumas condições para o equilíbrio e sustentabilidade à produção.

 

Falando um pouco sobre a gestão deste espaço, que abrange cerca de 25 hectares de terreno. É um espaço ainda incompleto?

Sim porque o projeto inicial era integrar aqui (instalações à face da A28) todas as empresas do grupo. Travámos de alguma forma o investimento no espaço porque tínhamos outras prioridades. Estamos agora a pensar reformular o projeto inicial, e ir aos poucos integrando aqui todas as empresas. Isso será faseado e feito conforme for possível, mas iremos dar início ao processo ainda este ano.

 

Pode detalhar algumas dessas transformações?

Trata-se de criar infraestrutras para centralizarmos todas as empresas e oficinas, passando-as para aqui. Pois ainda temos o departamento de Transportes da Agros e as empresas Prodística e Agros Comercial no edifício junto à antiga Fábrica (em Vila do Conde). O objetivo é, num único local, sediarmos todas as empresas.

 

Que será feito com os terrenos na EN 13, no lugar de Portas Fronhas, e que possam ficar livres, após a concentração preconizada?

Iremos possivelmente vender mas ainda é um caso a ponderar. No atual espaço, demos alguma utilidade, fazendo a AgroSemana, uma feira que começou quase por brincadeira e que hoje já tem nome no mercado, não só no norte mas também a nível nacional.

 

O objetivo é fazer da AgroSemana a principal feira do setor no norte?

Sim. Um dos nossos focos é que os políticos tenham necessidade de passar por cá, para nós lhes mostrarmos e expressarmos as nossas reivindicações e o bem fazer das nossas gentes.

 

A feira irá continuar a ser de entrada gratuita?

Para já sim. Iremos avaliar a possibilidade de em algumas situações passar a cobrar.

 

A vossa intenção com a AgroSemana é promover o leite?

É esse o principal foco, fazendo chegar a mensagem dos benefícios do leite ao público da cidade e potenciais consumidores. Isto, ao contrário das campanhas de desinformação e difamatórias de que o leite faz mal. Há interesses e lobbies instalados que querem passar essa imagem e esta é a nossa forma de comunicar que o leite faz bem, e é o que temos feito.

——

A mudança de sede

A Agros nasceu em Vila do Conde, sendo uma referência deste concelho. No entanto com a mudança de instalações para Argivai, junto à A28, passou a ser um grande empreendimento na Póvoa de Varzim. Como é que os empresários, Produtores e dirigentes sentiram esta mudança?

Houve de facto algumas resistências e pessoas que não entenderam muito bem. A justificação dada na altura foi a de que pretendiam arranjar um espaço em que o projeto delineado se pudesse enquadrar e a solução foi aqui. Ainda se pensou na antiga fábrica de Mindelo mas acabou por não se concretizar. Eu não ligo muito a isso. Eu sou vila-condense e defendo essa identificação mas nós somos todos vizinhos, Vila do Conde e Póvoa de Varzim até se confundem muitas vezes. Não é um problema, é uma oportunidade.

 

É uma forma de aproximar os dois concelhos?

Sim. Aliás, em todos os eventos que fazemos continuamos a convidar as Câmaras da Póvoa e Vila do Conde. Não fazemos aqui essa divisão. Como Produtores eu acho que as cooperativas ainda têm um âmbito de atuação muito restrito naquilo que é a área geográfica de concelho. Nós hoje já somos tão poucos que mesmo todos juntos representamos pouca gente, temos que olhar isto como uma unidade. Às vezes os políticos tendem a esquecer isto, mas a produção do leite tem um peso significativo em termos da economia local

 

Foi referenciado por diversas vezes que na Agros, os seus dirigentes usufruem de salários elevados, que até chegou a ser notícia a nível nacional. O que há de concreto nesta situação e se há queixas dos Produtores sobre esta situação?

A questão dos vencimentos não era aqui na Agros, era na Lactogal. E o que é que nós fizemos?  Os três administradores da Agros na Lactogal, abdicaram do vencimento na Lactogal e esse valor passou a ser pago em termos de prestação de serviços à Agros SGPS, que é a Empresa do Grupo que participa diretamente na Lactogal. Estamos a falar de uma empresa que movimenta em termos de volume de negócios mais de 640 milhões de euros e, portanto, isto é muito exigente em termos de responsabilidade de gestão.

 

Quantos colaboradores tem atualmente a Agros?

São 430 colaboradores na Agros , que abrange todas as empresas do grupo.

 

Isso é importante para a economia local até porque a grande maioria será certamente desta região…

Sim. Nem seria lógico ser de outra forma.

 

Eleições

No ato eleitoral realizado no final do mês de março, o mesmo contou com uma boa participação?

Sim. Eu penso que nós tínhamos um universo de 132 delegados e votaram 127.

 

Foi a maior de sempre?

Não sei. No meu primeiro mandato o universo de delegados provavelmente seria maior porque, entretanto, houve cooperativas que entraram em insolvência, pelo que pode ter sido maior a participação. E nessa altura também havia mais do que uma lista.

 

Desta vez, as eleições contaram com lista única à Direção e Assembleia Geral, no entanto para o Conselho Fiscal surgiram 2 listas…

Neste ato eleitoral sim.

 

Conseguiu reunir a unanimidade para a Direção?

Não, isso é muito difícil quando há duas listas. Também não sou adepto da unanimidade, quando toda a gente concorda com tudo, há sempre qualquer coisa que não está bem. Não é benéfico para qualquer organização que as coisas estejam muito unânimes. De qualquer forma, conseguimos, dos 127 delegados, eleger o Conselho de Administração e Assembleia Geral, para os quais só havia uma lista, com 96 votos.

 

A assembleia geral é dirigida por…

Dr. Idalino Leão.

No Conselho Fiscal…

Tínhamos duas listas, a minha concorria a todos os órgãos sociais e delegados. Havia uma outra lista que só concorreu ao conselho fiscal, tendo sido eleito António Balazeiro, membro da nossa lista, e que é o atual presidente da Cooperativa Agrícola de Vila do Conde.

 

Fonte: MAIS

 

Órgãos Sociais AGROS:

Direção

Américo Soares – Vogal

Américo Cunha – Vice – Presidente

José Capela – Presidente

Vítor Maia – Vogal

José Campos -Vogal

 

Assembleia Geral

Fernando Hora – Secretario

Manuela Marinho – Secretario

Idalino Leão – Presidente

Francisco Presa – Secretario

 

Conselho Fiscal

Irene Ermida – Membro Efetivo

António Balazeiro – Presidente

Luis Alves – Membro Efetivo

 

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