Em Itália, a agricultura enfrenta dificuldades com a pandemia de Covid-19

Confagri 30 Mar 2020

Fonte: tsf.pt

Segundo o especialista Carlo Triarico, se a indústria agroalimentar italiana parar, será um golpe fatal para a União Europeia.

Para conter a disseminação do coronavírus em Itália, muitas fábricas estão paradas, lojas fechadas, a produção limita-se ao essencial. Mais do que nunca a agricultura é o bem primário e não pode parar.

A Itália é o primeiro país em produção agrícola da União Europeia (UE) e movimenta um mercado de quase 32 mil milhões de euros para o consumo interno e exportação.

Entre os principais produtos italianos estão os vegetais: tomate, beringela, alcachofra, chicória fresca, endívias, aipo e erva-doce; também frutas como maçãs, peras, cerejas, damascos, uvas de mesa e de vinho, kiwis e avelãs, além de de arroz e trigo duro.

Com o maior número de produtos típicos, a Itália também é líder mundial na produção de alimentos orgânicos e biodinâmicos. Em 2018, totalizou 4 mil milhões de euros no mercado interno e 2,2 mil milhões de euros em exportações.

Em Itália, não faltam alimentos frescos nos mercados e feiras, mas os produtores enfrentam dificuldades com a mão-de-obra nos campos, no transporte e na distribuição.

É na Lombardia, a região mais afetada pela epidemia, que se concentra a maior produção agrícola da Itália. Cerca de 70% do território é destinado à agricultura, o primeiro produtor italiano de arroz, vegetais embalados e carne de porco e leite, com 500 mil vacas leiteiras.

Segundo o especialista em agricultura Carlo Triarico, presidente da associação de produtores de alimentos orgânicos biodinâmicos, o setor de leite é um dos que mais correm riscos.

“As pessoas, agora, podem sair pouco para comprar alimentos, com longas filas nos supermercados e, portanto, preferem comprar produtos em conserva, que duram vários dias. Por esse motivo, os produtos frescos são pouco vendidos. Além disso, os armazéns das empresas estão cheios de produtos que, se não são vendidos, deterioram-se”, explica Carlo Triarico.

“Se houvesse apenas um caso de infeção entre fazendas ou fábricas, isso significaria ter de colocar em quarentena os trabalhadores, higienizar tudo e depois parar de trabalhar. Isso para o produto fresco perecível significaria o encerramento e o colapso para vários agricultores. Infelizmente, os trabalhadores agrícolas já são poucos e, se uma parte ficasse em casa, o sistema não aguentaria mais. É por isso que hoje é necessária a ajuda da UE ao trabalho agrícola”.

Triarico ressalta que, no setor agrícola italiano, o número de trabalhadores diminuira já antes da pandemia do novo coronavírus.

“Em 2017, a agricultura na Itália perdeu 13 mil trabalhadores num ano. Infelizmente, a redução do emprego não é resultado de uma qualificação mais alta, como pode ser visto no indicador de renda agrícola, que caiu 2,7% no ano passado, enquanto na UE aumentou 2%”, refere.

Mudanças climáticas

Os estudos de Carlo Trarico mostram que em 2019 já havia uma redução na produção agrícola, principalmente devido às mudanças climáticas (menos 1,3 em volume). A perder são, acima de tudo, vinho (- 12%), frutas (-3,0%), cereais (- 2,6%), criação de animais (-0,3%).

“Hoje, devido à epidemia, pode haver dificuldades em semear e plantar, regar e realizar o trabalho, mesmo na colheita dos produtos. Isso colocaria em risco o ano agrícola de 2020, interromperia a cadeia de suprimentos agroalimentares e o fornecimento de alimentos aos cidadãos. Pode haver uma catástrofe no setor agroalimentar. Um risco a ser evitado pelo fortalecimento do setor”, comenta.

Triarico alerta para as consequências de uma crise ou eventual paralisação do setor agrícola em Itália: “Se a indústria agro-alimentar italiana parar, será um golpe fatal para a UE. Uma vez que a crise tenha passado, caberá à agricultura absorver parte do desemprego sem precedentes que a epidemia provocará. Por esse motivo, a UE deve perceber que é urgente introduzir, por meio de uma conversão radical da Política Agrícola Comum, dinheiro fresco na Itália para apoiar o trabalho agrícola e a cadeia de suprimentos virtuosa e solidária.

“É preciso também garantir a remuneração dos agricultores nos planos de ação agroecológicos. Um exemplo é o da agricultura orgânica e biodinâmica, da qual a Itália é o principal exportador mundial”, concluiu.

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