Observatório defende auditoria para responsabilizar fase de rescaldo em Monchique

Confagri 10 Mai 2019

O Observatório Técnico Independente criado pelo parlamento para acompanhar os incêndios florestais aponta falhas no combate inicial ao fogo de Monchique, o maior de 2018, e defende uma auditoria para apurar responsabilidades na fase de rescaldo e extinção.

«O rescaldo e a extinção do incêndio foram de grande dificuldade. As condições meteorológicas e de combustível eram claramente desfavoráveis, mas não foram aproveitadas as condições mais favoráveis para as operações de rescaldo, durante a noite e madrugada», referem os peritos do Observatório Técnico Independente (OTI), num relatório sobre o incêndio que deflagrou em agosto de 2018 em Monchique, Algarve.

O relatório de avaliação ao incêndio de Monchique, entregue ontem, quinta-feira, na Assembleia da República, precisa que a «falta de estratégia, de empenhamento, de cumprimento das ordens de comando, de pouca motivação para uso de ferramenta manual» foram razões identificadas e que contribuíram para «as muitas reativações identificadas».

Nesse sentido, o OTI defende que deve existir «uma auditoria externa em situações com a gravidade do incêndio em análise de forma a responsabilizar quem não fez o trabalho que era suposto ter feito».

Segundo o documento, no incêndio de Monchique, que deflagrou entre 3 e 10 de agosto de 2018 e consumiu mais de 27 mil hectares, verificou-se a ocorrência de 93 reativações, sendo as mais importantes as que ocorreram entre os dias 4 e 9.

O OTI indica que a larga maioria dos reacendimentos deram-se entre as 12 horas e as 18 horas, cerca de 56 por cento das quais coincidiram com as condições meteorológicas mais favoráveis para um aumento da intensidade do fogo, nomeadamente aumento da temperatura, descida da humanidade relativa e aumento da velocidade do vento.

«O que se passou na manhã do dia 04 é bem ilustrativo deste problema, já que estavam perfeitamente identificados os pontos quentes que deveriam ter sido adequadamente rescaldados. O mau desempenho de quem estava encarregado de fazer este trabalho foi determinante para o que se seguiu nos dias seguintes e para a elevada extensão do incêndio», concluiu.

O relatório de avaliação ao incêndio de Monchique sublinha que a evolução do fogo foi «condicionada pelas operações de combate», nomeadamente no ataque inicial. «O ataque inicial é uma fase fundamental que não foi conseguida neste incêndio. A abundância de recursos preposicionados e o rápido despacho de meios poderiam apontar para uma extinção rápida, apesar das condições meteorológicas e de combustível desfavorável. No entanto, tal não foi conseguido», concluíram os peritos.

O OTI aponta igualmente algumas falhas ao ataque ampliado que durou vários dias, considerando que foi «largamente subutilizada» neste fogo a definição de uma estratégia de controlo, antevisão do potencial de propagação do incêndio e a sua evolução, bem como «as janelas de oportunidade de controlo que a meteorologia oferece, conjugada com as condições do terreno e do combustível».

Por outro lado, precisam os peritos, «as estratégias de combate e articulação das forças no teatro de operações não foram as mais adequadas», como foi o caso da utilização de máquinas de rasto.

O relatório considera que a gestão da informação é importante na fase de gestão das operações e na fase de operação do planeamento, devendo os briefings operacionais realizarem-se segundo o comportamento do fogo presente e previsto.

No caso do incêndio de Monchique, de acordo com o OTI, realizaram-se 25 “briefings” operacionais, mas em «intervalos de tempo muito díspares». «Nos dias em que o incêndio mais cresceu, apenas se realizaram cinco “briefings”, o que demonstra que as forças envolvidas não seguiram um plano estratégico de ação coordenado pelo comandante das operações de socorro (COS). Tal implica que as unidades de combate presentes tenham atuado sem um plano e sem a devida e necessária coordenação para que os objetivos fossem atingidos, levando a dificuldade na concretização da missão de cada equipa», lê-se no relatório.

O OIT refere também que o reduzido número de “briefings” registados «demonstra que o comando de operações subvalorizou o potencial do incêndio».

Os peritos consideram ainda que segurança das populações foi um dos aspetos muito positivos do fogo de Monchique, destacando não ter ocorrido qualquer fatalidade num incêndio com estas características. PJ esclarece que não houve «ação humana dolosa».

Em comunicado enviado à comunicação social esta quinta-feira, a Polícia Judiciária esclarece que a causa do incêndio em Monchique foi determinada «quer pelas diligências investigatórias desenvolvidas, quer pelas conclusões do Laboratório de Polícia Científica da Polícia Judiciária».

Acrescenta que «é possível concluir pela não existência de ação humana dolosa, na origem do incêndio» e que «as investigações prosseguem, no âmbito de processo em curso, tutelado pelo Ministério Público competente, estimando-se que a sua conclusão possa ocorrer a breve prazo».

Fonte: Observador

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