Realidade aumentada chega à agricultura para melhorar produção

Confagri 22 Mai 2019

A Universidade de Wageningen, em Amesterdão, está a validar um sistema pioneiro para levar realidade aumentada à ciência das plantas. O projeto da Plant Vision consiste em usar infravermelhos, imagens térmicas e inteligência artificial num dispositivo móvel para aumentar a saúde e rendimento das culturas em estufas e ambiente controlado. Os primeiros testes foram feitos em tomate mas a cultura que se segue é a canábis.

Em 2018, as exportações de produtos agrícolas valeram 90,3 mil milhões de euros à economia da Holanda, cimentando o país europeu como segundo maior exportador agrícola do mundo, atrás dos Estados Unidos. Numa altura em que a população mundial se aproxima dos 7,7 mil milhões de pessoas, a necessidade de aumentar a produção alimentar coexiste com os riscos das alterações climáticas, a escassez de água e a desertificação. Foi por isso que a ministra holandesa da Agricultura, Natureza e Qualidade Alimentar, Carola Schouten, sublinhou a necessidade de «impulsionar a inovação agrícola» na Holanda quando apresentou os bons números de exportações, em janeiro, falando de «urgência» perante os problemas mundiais de procura alimentar que já se fazem sentir.

É nesse contexto que a Universidade de Wageningen, em Amesterdão, está a validar um sistema pioneiro para levar realidade aumentada à ciência das plantas. Esta tecnologia foi popularizada com o jogo Pokémon Go, em 2016, quando imagens dos “monstros” deste icónico universo vieram sobrepor-se a cenários reais através da câmara do smartphone. Ao contrário da realidade virtual, em que o utilizador é transportado para outro mundo e perde contacto com o cenário físico que o rodeia, porque os óculos ocupam todo o campo de visão e som dos auscultadores ajuda à virtualização, a realidade aumentada usa dispositivos móveis para sobrepor imagens e informação ao que está mesmo à nossa frente. Tal pode ser feito com um smartphone ou um dispositivo ocular como os HoloLens da Microsoft.

«A realidade aumentada usa dispositivos móveis para sobrepor imagens e informação ao que está mesmo à nossa frente. Tal pode ser feito com um smartphone ou um dispositivo ocular».

No caso do projeto “Compreender as plantas através de realidade aumentada”, montado pelo norte-americano Ryan Hooks ao longo do último ano, o foco está em dispositivos móveis. A Universidade de Wageningen é uma das principais instituições de pesquisa de ciência das plantas do mundo e irá validar cientificamente o trabalho, que se dedicou ao aumento da produção de tomate através da utilização de realidade aumentada, durante os próximos anos. Agora, Ryan Hooks está de volta aos Estados Unidos para desenvolver o sistema noutra área, a das plantas de canábis. Mas mais importante que a plantação específica é o conceito: usar um dispositivo móvel com inteligência artificial para descobrir como aumentar a eficiência do cultivo. No fundo, cumprir a missão das tecnologias viradas para a ciência das plantas, que é melhorar a saúde e rendimento da produção.

Aumentar a produção em 25%

A startup de Ryan Hooks, Plant Vision, desenvolveu um sistema através do qual é possível usar um iPhone para “ver” o que se passa dentro de uma planta de estufa e tomar as medidas adequadas. Inicialmente, a empresa focou-se na conjugação do iPhone com os óculos de realidade mista Vuzix, mas neste momento está a trabalhar no mesmo efeito com um acessório mais barato porque «a tecnologia é muito cara», diz Ryan Hooks à Vida Rural.

Realidade aumentada chega à agricultura para melhorar produção

Os óculos da Vuzix custam mil dólares e um iPhone de última geração não anda longe disso. A alternativa é adicionar um acessório de câmara tradicionalmente usado para visão noturna e imagens térmicas, por exemplo pela polícia ou por especialistas à procura de infiltrações nas paredes. «Conseguimos utilizar esse espetro para compreender a saúde das plantas», declara Hooks. «Somos os primeiros e únicos a usar infravermelhos em dispositivos móveis para a saúde das plantas». O produtor poderá abrir a câmara do iPhone, apontá-la a uma planta e visualizar, sobreposta à imagem real, uma série de informações e recomendações relevantes para melhorar a sua produção.

“Com infravermelhos é possível começar a ver doenças três dias mais cedo”.

O acessório custa cerca de 400 dólares e transforma o iPhone num dispositivo com capacidades pioneiras: «Estamos a construir ferramentas de realidade aumentada que melhoram a produção de canábis», explica Hooks, «e com infravermelhos é possível começar a ver doenças três dias mais cedo». É que o sistema da Plant Vision não procura ser simplesmente de diagnóstico. «Quando se vê míldio na planta através do telemóvel, a doença já a matou», refere o norte-americano. «O reconhecimento de imagem num telemóvel não faz grande coisa para ajudar um produtor ou uma empresa, porque o que é necessário é ver a doença via infravermelhos a tempo de mudar o clima, adicionar nutrientes ou diminuir a humidade na estufa para compensar». A mais-valia da Plant Vision, considera, é a capacidade de dar ao produtor tempo para corrigir problemas, uma «forma interessante» de pensar na saúde das plantas em diversos espetros.

Ao nível do software inteligente, a ideia é treinar o sistema para detetar, por exemplo, insetos não benéficos e diferentes doenças. «À medida que a inteligência artificial aprende ao longo do tempo e treinamos e usamos o sistema, este será capaz de detetar anomalias», sintetiza o empreendedor.

A startup, que se relocalizou para Los Angeles, Califórnia, está agora a conduzir testes com empresas de canábis, onde a expectativa é aumentar o rendimento da produção na ordem dos 25 por cento. «A plataforma da Plant Vision vai escalar para outros setores e estaremos interessados em ver onde podemos fazer projetos piloto com diferentes empresas», adianta o fundador. O setor da canábis está a explodir nos Estados Unidos, à medida que os Estados vão legalizando o cultivo e consumo, e há dois anos até surgiu outra startup que desenvolveu um sistema de realidade aumentada para diagnosticar problemas com cultivos de canábis. A Snaphash combinava um módulo de câmara macro para iPhone e um software de análise denominado “BudRx”, uma espécie de raio-x da planta. Todavia, a startup parece estar inativa: o site desapareceu e a aplicação não se encontra em lado nenhum, o que indicia o quão difícil é ser bem-sucedido neste nicho.

Um segmento incipiente

Apesar do entusiasmo do mercado com a realidade aumentada e os avanços feitos nos últimos anos ao nível do hardware e software, desde óculos HoloLens e Vuzix ao navegador dedicado Firefox Reality, este é um segmento ainda pouco explorado dentro da tecnologia para agricultura, ou “agtech.” Tal deve-se não apenas ao preço elevado do hardware, mas também às características do setor, que continua a ser conservador.

É o que afirma Bruno Fonseca, CEO da startup portuguesa Agroop, especialista em tecnologia de monitorização de colheitas. «Não estamos neste momento a olhar para a realidade aumentada, nem acredito que neste momento seja algo muito aliciante para os produtores», avança o responsável à Vida Rural. O CEO da startup acrescenta que ainda está a lutar pela implementação de tecnologia menos complexa «e mesmo isso ainda é um desafio». No seu entender, «teremos de percorrer um longo caminho até lá chegarmos».

A Agroop está neste momento a conduzir uma quarta ronda de financiamento na plataforma Seedrs para obter meio milhão de euros, que serão usados para reforçar a estratégia de internacionalização. Embora haja mais capital disponível para agtech que no passado, a indústria continua a ter menor acesso a financiamento que outros segmentos de rápida inovação.

E isto apesar de, no último relatório sobre financiamento de startups de agtech, a Finistere Ventures e a PitchBook terem notado a rápida maturação do segmento num curto espaço de tempo, à medida que «mais conhecimento e recursos são atraídos para a categoria». A diferença para outras indústrias, lê-se no trabalho publicado em 2018, é que o mercado agtech «é fortemente influenciado pelo que acontece nas etapas angel e semente», por oposição a números mais expressivos em rondas Série A e B – das que fazem manchetes. O segmento totalizou 123,9 milhões de dólares levantados em 2017, com 108 rondas de financiamento distribuídas por tecnologia animal, proteção de cultivos, agricultura indoor, agricultura de precisão, imagem e ciência das plantas. Esta última, apesar de ter «algumas das tecnologias e saídas mais conhecidas e lucrativas», recebe menor financiamento inicial que as outras áreas. A PitchBook contabilizou apenas 4 rondas de financiamento em 2017, num total de 8,1 milhões de dólares, sendo que o motivo passa pela «complexidade do desenvolvimento tecnológico, barreiras regulatórias e longos períodos de desenvolvimento».

Realidade aumentada chega à agricultura para melhorar produção

Ryan Hooks reconhece estas questões e refere que a Plant Vision «está aberta a opções de financiamento», explicando que o modelo de negócio por agora incide em produções mais pequenas e altamente especializadas, por oposição a grandes propriedades onde é mais difícil justificar o investimento.

«Eventualmente será possível fazer isto em escala, mas neste momento são instalações feitas à medida para os projetos pilotos que estamos a fazer agora», indica. Ryan Hooks acredita que a realidade aumentada «será mais usada dentro das instalações e em estufas» e constitui uma «ponte para a automação nesta indústria». Voltando ao caso dos produtores holandeses, Hooks explica que a ideia de usar um sistema como o da Plant Vision é sobretudo interessante de forma remota, para controlar a produção de produtos como tomates ou pepinos em estufas na Rússia, na China ou noutra parte do mundo. Sabendo que é importante a forma como se corta a planta e se tiram as folhas, Hooks diz que «há muita inteligência que pode ser sobreposta nesse processo».

«Outro aspeto em que a Plant Vision está interessada é explorar a visão das abelhas e os motivos que as levam a escolher uma flor em detrimento de outra para a polinização».

No cultivo específico da canábis, um jardineiro mestre pode encontrar uma estirpe que é muito boa para dores nas costas, mas perceber que é difícil replicá-la porque exige muita experiência e conhecimento. «Ele pode então treinar o sistema da Plant Vision e depois todos os jardineiros fazem como o mestre», exemplifica Hooks. «A criação de flor de canábis e plantas medicinais são produções que a realidade aumentada pode ajudar a escalar».

Um outro aspeto em que a Plant Vision está interessada é explorar a visão das abelhas e os motivos que as levam a escolher uma flor em detrimento de outra para a polinização. «Queremos entender essas flores e ver esses padrões», diz, explicando que se trata de «fenotipagem aumentada». A atividade agrícola diz, «será mais automatizada, com tratores e robôs» no exterior e realidade aumentada «dentro das instalações e estufas». Embora o futuro seja incerto, «ainda vamos precisar de humanos», graceja, «mas vamos aumentá-los».

Fonte: vidarural

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