O vinho deve estar fora da nossa roda dos alimentos? DGS vai fazer a discussão

Confagri 15 Jul 2019

Fonte: dn.pt

Diretora do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável adianta ao DN que esta é certamente uma das áreas que irão ser discutidas pelo grupo de trabalho que vai rever a roda dos alimentos.

As autoridades de saúde portuguesas vão discutir a retirada do vinho da nossa roda dos alimentos. A versão da roda da alimentação mediterrânica, de 2016, inclui uma referência ao consumo moderado de vinho, mas agora a Direção-Geral da Saúde quer que o grupo de trabalho que vai rever o guia alimentar português discuta a sua saída, depois de estudos recentes terem demonstrado que não há qualquer nível de ingestão de álcool que possa ser considerado seguro. Esta é uma das principais medidas que faz parte do Relatório Anual do Programa para a Promoção da Alimentação Saudável, que vai ser apresentado nesta segunda-feira no Porto.

No seu roteiro de ação para 2019-20, o programa prevê a revisão da roda dos alimentos, defendendo genericamente o “desenvolvimento de um novo guia alimentar para a população portuguesa”, já que o anterior tem já mais de 15 anos, foi desenvolvido em 2003. Depois dessa data, e com base no documento do início do século, foi apenas desenvolvida a roda dos alimentos mediterrânica, que pretendia destacar os produtos mais característicos do nosso padrão cultural e onde o consumo moderado de vinho aparecia. “Se é adulto e bebe vinho faça-o com moderação e às refeições”, pode ler-se ainda no folheto que acompanha a representação gráfica da roda.

Questionada sobre a possibilidade de esta referência poder deixar de fazer parte do nosso guia, a diretora do Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável adianta ao DN que esta é certamente uma das áreas que irão ser discutidas pelo grupo que vai ser constituído para fazer este trabalho e que será nomeado ainda nesta legislatura. “A evidência mais recente diz-nos hoje que não há qualquer nível de ingestão de álcool que possa ser considerado seguro e sem riscos para a saúde. A Organização Mundial da Saúde atualmente recomenda consumo zero”, argumenta Maria João Gregório, que lembra que no folheto explicativo da roda dos alimentos portuguesa de 2003 ainda se lê que os adultos podem consumir bebidas alcoólicas sem risco, acompanhando essa informação com as quantidades admissíveis para homens (dois copos pequenos de vinho por dia) e mulheres (um copo de vinho).

“Não queremos desconsiderar as questões culturais”, garante Maria João Gregório, “mas também não podemos descurar as questões de saúde pública e as evidências científicas, que são muito recentes, de agosto do ano passado, e que mostram que não há níveis de consumo sem riscos para a saúde. É uma discussão que tem de ser feita”

“A evidência mais recente diz-nos hoje que não há qualquer nível de ingestão de álcool que possa ser considerado seguro e sem riscos para a saúde.”

As alterações nos padrões de consumo alimentar dos portugueses, que se verificaram nos últimos anos, também justificam a necessidade da revisão da roda dos alimentos. “Há alguns alimentos que não faziam parte do padrão alimentar dos portugueses no passado e que agora estão muito presentes na nossa alimentação. Temos de olhar para estes casos também e refletir se devem ser ou não incluídos no guia alimentar para a população portuguesa.”

Desafiada a dar exemplos sobre os produtos que podem entrar na nossa roda, Maria João Gregório aponta a quinoa, que passou a estar presente no padrão alimentar de muitas famílias. “Faz sentido, por ser muito consumida, ou não faz sentido, por não fazer parte do nosso padrão cultural? São estas discussões que devem ser feitas, até para perceber se são produtos que devem fazer parte da representação gráfica da roda dos alimentos ou serem definidos apenas como alimentos nutricionalmente semelhantes.”

Menos sal nos queijos e fiambres

A DGS quer também cortar o sal em mais alimentos que fazem parte dos hábitos de consumo dos portugueses. Depois da assinatura de diversos protocolos em maio para reduzir o sal e o açúcar em dezenas de produtos, a atenção vai virar-se agora para os queijos e fiambres. “Pretende-se também continuar o diálogo com as associações que representam os setores das indústria alimentar e da distribuição para que seja possível promover a reformulação de algumas das categorias de alimentos que mais contribuem para a ingestão de sal e açúcar na população portuguesa e que não foram ainda incluídas na primeira fase do plano para a reformulação dos produtos alimentares”, avança o relatório, que além das bolachas e biscoitos inclui os queijos e os fiambres entre os produtos a serem abrangidos.

A reformulação dos teores de sal, açúcar e ácidos gordos trans poderá ser capaz de salvar 798 vidas num ano.

“Estes contactos foram efetuados logo no início quando começámos a dialogar com a indústria alimentar e de distribuição para discutir a reformulação dos produtos alimentares. Nesta primeira fase não foi possível ainda assinar um acordo para a reformulação dos queijos e fiambres. Mas estes produtos alimentares têm uma contribuição importante para a ingestão de sal na população portuguesa, pelo que iremos continuar a trabalhar para incentivar a sua reformulação”, esclarece Maria João Gregório.

O relatório da DGS lembra os resultados de um estudo conduzido com o apoio da OMS e que procurou avaliar o impacto da reformulação dos produtos alimentares na redução da mortalidade associada às doenças crónicas em Portugal, onde se verificou que a reformulação dos teores de sal, açúcar e ácidos gordos trans poderá ser capaz de salvar 798 vidas num ano (redução da mortalidade associada às doenças crónicas), das quais 248 são relativas à redução da mortalidade precoce.

Lei da publicidade regulamentada nas próximas semanas

Em entrevista ao DN, Maria João Gregório adianta ainda que a regulamentação da lei da publicidade de alimentos dirigida a crianças está já na fase final de elaboração, devendo ser enviada para publicação em Diário da República nas próximas semanas. “Já fizemos a última reunião com os diferentes parceiros no dia 8 de julho. Estamos mesmo a finalizar o despacho que determina o perfil nutricional dos alimentos.” Nesta área, o programa para a alimentação saudável considera ser determinante “refletir sobre os métodos de monitorização no contexto do marketing digital bem como sobre o plano de avaliação do impacto desta medida”.

“Já fizemos a última reunião com os diferentes parceiros no dia 8 de julho. Estamos mesmo a finalizar o despacho que determina o perfil nutricional dos alimentos.”

Já em relação às escolas que continuam a disponibilizar em bares e máquinas de venda produtos – bolos, batatas fritas, doces, refrigerantes, gelados – que vão contra as orientações para uma alimentação saudável, Maria João Gregório prefere pôr a tónica na fiscalização. “No caso das escolas, temos já regulamentação da Direção-Geral da Educação. Mas o trabalho ao nível da fiscalização é muito importante e necessário. E aqui reforço que todos nós podemos ter um papel importante. Os pais, as escolas, os municípios.”

Em 2017, os hábitos alimentares inadequados dos portugueses foram o terceiro fator de risco que mais contribuiu para a perda de anos de vida saudável, nomeadamente devido a doenças metabólicas, doenças do aparelho circulatório e neoplasias, mostram dados do estudo Global Burden of Disease. Em Portugal, cerca de 300 mil anos de vida saudável poderiam ser poupados se os portugueses melhorassem os seus hábitos alimentares. Um cenário que é também alarmante entre os mais jovens: em 2019, cerca de 29,6% e 12% das crianças portuguesas apresentavam excesso de peso e obesidade, respetivamente.

Outras medidas para 2019-2020

Rotulagem nutricional
• Desenvolvimento de um trabalho técnico de aplicação de diferentes modelos de rotulagem nutricional a alimentos disponíveis no mercado português.
• Elaboração de uma proposta de modelo de rotulagem nutricional interpretativo.

Aumentar a implementação do Processo Assistencial Integrado da Pré-Obesidade no adulto nos centros de saúde
• “A intervenção integrada deve começar logo na pré-obesidade permitindo uma abordagem uniforme ao longo do país e capaz de ser monitorizada informaticamente”. Até ao final do ano de 2019 está prevista a implementação do Processo Assistencial Integrado da Pré-Obesidade no adulto em pelo menos dois agrupamentos de centros de saúde.

Promover a literacia alimentar e nutricional da população portuguesa
• Realização de uma campanha mediática para a promoção da alimentação saudável.
• Publicação de pelo menos dois documentos destinados a profissionais.

Promoção da alimentação adequada nos primeiros mil dias de vida
• Publicação de um manual sobre a promoção da alimentação saudável nos primeiros mil dias.
• Publicação de recomendações em colaboração com o Ministério da Educação e o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Alimentar para creches e jardins-de-infância.

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